segunda-feira, 4 de abril de 2011

sem luz



o porto é campeão (parabéns filhote e restantes portistas), foi o melhor de todos.

num daqueles acasos do calendário, foi campeão no estádio da luz, onde quem perdeu apagou a dita e ligou o sistema de rega.

é chato perder e é pior perder em casa e deve ser teso ter de ser hospitaleiro com quem nos ganhou. mas é pior passar por imbecil e mal criado. quanto custa deixar ligada a luz mais 15 minutos? e iniciar a importante tarefa de regar a relva depois do campeão fazer a festa? e dar os parabéns a quem foi melhor?

é chato não ter a melhor equipa, mas é pior ter gente mesquinha a dirigir o clube.

atitude que eu admiro (e faço por ter, porque perco basto) é homem (ou mulher) que perde como homem (ou mulher). dão-se os parabéns ou admitem-se responsabilidades, fica-se vertical, recebem-se os impactos e nunca se dobra a espinha ou o olhar. e não se paga a luz, já todos viram.

prazeres matinais



quando era muito miúdo, da idade do meu miúdo, ia muitas vezes enfiar-me na cama da minha avó, de manhã, ao acordar, e ficava a preguiçar. isto era nas férias, ia quando ela já estava levantada há muito e deixava a cama vazia, e guardei até hoje a sensação dos lençóis (naqueles tecidos antigos, sem luxos, tão hospitaleiros) e da almofada (uma trouxa comprida, que eu abraçava).

já graúdo, o meu maior prazer matinal passou ao café. sou péssimo de acordar (não sei se a preguiça nos lençóis da abuelita foi causa ou primeira manifestação), grunho, respondo torto (como se a culpa de acordar seja de quem me interpela), zumbo pela casa e pela rua até à cafeína. (nem sempre acordo assim (sexo matinal atenua isto e ter o gustavo connosco resolve), há manhãs más e há manhãs piores).

agora, pelas últimas semanas, é o sumo de laranja. ainda preciso e aprecio o café, mas a laranja é o que melhor me sabe, pela manhã. gosto de as espremer manualmente, aborrece-me o barulho dos espremedores eléctricos, e gosto de espremer nas mãos o que o espremedor deixou.

just to let you know i'm still here, and i fancy orange juice in the morning.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

os/as amigos/as



é uma tradição (sexista) nas ilhas dos açores, o dia dos amigos (e o dia das amigas) (e o dos compadres e o das comadres). nestes dias, os amigos cumprimentam-se, falam-se, saem para jantar e noitada. o dia das amigas
tem ainda mais piada, porque as mulheres e raparigas saem juntas e excedem-se (percebe-se melhor tendo em conta que é uma sociedade pouco liberal, a açoreana).

tendo também em conta que se trata de comunidades que vivem isoladas (volto a isto no final), existe uma mais valia na amizade. no continente, em situações urbanas, de metrópole (....), é fácil desprezar os outros, ignora-los, passar ao lado de emoções humanas, porque existem mil e uma outras emoções a ocupar a atenção: o trânsito e outras disputas urbanas (filas de supermercado, atenção do empregado de mesa do café), o stress do trabalho, as tecnologias novas e atraentes, o sossego sem que ninguém chateie ao fim do dia. nos açores (tal como em zonas muito rurais do continente) também há isto, numa escala menor, sem a mesma importância.

estar numa ilha sozinho é muito teso, e é por isso que o conceito de dia dos amigos é importante. por isso, bom dia de amigos aos amigos (e amigas, para contornar o sexismo da coisa) que tenho espalhados por aí.

pos scriptum- acerca de estar isolado numa ilha, li na altura que o túnel da mancha foi aberto, num qualquer jornal inglês, um cabeçalho fenomenal: "o continente deixou de estar isolado", o que é uma excelente questão de perspectiva.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

regras



piada de introdução: uma vez um colega perguntou-me, de brincadeira, quem teria sido o primeiro homem mestruado. "foi
joão das regras" (jurista português do século XIV, que contribuiu para o início da segunda dinastia)... a piada é sequíssima, mas vem-me sempre que passo na rua, e voltou hoje, por causa do título do post.

acerca de regras e de tendências anárquicas:

regras são necessárias, mesmo fundamentais (pelo menos em fase de crescimento das entidades e/ou instituições). mas não necessariamente para (ou por) serem cumpridas. é a subversão das regras que permite crescimento (daí a necessidade delas).

normalmente, uma regra bem elaborada define princípios e prevê excepções. tomando por exemplo a história dos abusos da asae, quando se levam as regras à risca, dá asaeneira. uniformizar, a bem de simplificar, costuma trazer prejuízos à multiplicidade e criatividade.

no exercício do meu ofício tenho de cumprir regras, muitas delas imbecis. algumas subverter, quando estorvam, outras, por causa de licenciadores rigorosos, não. para deixar exemplos básicos: janelas no tecto não conferem iluminação e ventilação regulamentar; as casas de banho têm de ter determinado equipamento, mesmo que nunca seja utilizado pelos utilizadores; determinados espaços têm de ter determinado tipo de revestimento, o que inviabiliza milhões de outros, etc.

outro exemplo, o que me trás aqui: espaços de público, espectáculos, restauração e bebidas, têm de cumprir pipas de regras de circulação, funcionamento, equipamento, materiais, o diabo. isto levou a uma uniformização que diminuiu a qualidade dos espaços (ultimamente tem havido investimentos no aumento dessa qualidade, dentro do cumprimento de regras, por necessidades de sobrevivência económica).

no fim de semana estive no chapitô. quem conhece sabe que aquilo cumpre quase nenhuma regra e é um acumular de incumprimentos e excepções, e é por esse motivo (por criar um mundo fora de regras que funciona melhor que o regrado) que os espaços e vivências são fascinantes.

claro que as condicionantes ajudam, regrar um espaço existente, num centro histórico (edifícios com características pré-regras-actuais, dificilmente readaptáveis a elas) é impossível e fácil de justificar, e deixar que os edifícios se degradem é uma não opção. em consequência, torna estes edifícios mais apetecíveis para quem quer viver fora de regras. (noutra perspectiva, o valor destes espaços deveria levar a questionar as regras que os impossibilitam, não?).

não é que não se possa ser único cumprindo todas as regras, porque há maneiras e maneiras de as cumprir. nem é obrigatório que se seja único, admitindo-se que há vantagens em ser igual e em estar integrado, sendo que há maneiras e maneiras de estar integrado. mas há um prazer único em estar num espaço fora-de-lei, sem paredes convencionais em volta, fazendo o que se quer e como se quer, com as consequências que vierem, e em receber pessoas nesse espaço e modo de regras diferentes. just sayin'...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

não tenho título para isto



há momentos em que é impossível confiar na humanidade, e isso é demolidor.

farto de gente ignorante a tentar impor o seu mundo mesquinho aos outros, farto.

https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?cl=919500276&v=8241

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

pr'11



eleições para presidente, primeira volta (e esperemos seja a única, porque o país parece não conseguir pagar uma segunda. pensando bem, nem devíamos fazer eleições, poupávamos uns trocos).

pensando melhor, não, é melhor fazer a campanha. não para saber se o cavaco se elege numa rapidinha ou se o alegre disputa uma segunda, mas não há grandes diferenças (apesar de haver algumas, com alguma importância). não há diferença porque a atitude de ambos perante o cargo é semelhante, ambos se propõem coordenar o país, no seu curso actual.

eu acho que deveríamos eleger um idiota, zé manel coelho. há quem diga que se está a aproveitar os direitos de campanha (dispendiosos, que o país mal suporta), quem diga que está a lançar-se para as regionais da madeira, quem diga que é tudo galhofa e brincadeira sem substância, quem diga que a atitude que ele trás seria ruinosa, se implementada, quem garanta que um idiota de tal calibre não seria capaz de governar.

eu discordo (excepto na parte de ele se estar a aproveitar para outras campanhas e de ser capaz de governar, aqui não por ser idiota (o que o qualifica em absoluto para a eleição), mas por ser parvo, que já é uma desvalia grande).

estando ele a aproveitar-se e a usar o dinheiro público para proveito próprio (o que a lei permite e é enaltecido pelo povo, moi excluído), sendo um palhaço por natureza aprimorada (o que o povo aprecia, moi incluído), a verdade é que qualquer fulano(a) que apareça agora a dizer que a gestão do país (a qualquer nível e em qualquer cargo) tem de mudar de perspectiva, de uma submissão a interesses (ilegítimos) económicos que não são "nossos" (não por serem estrangeiros, mas por serem de quem nos explora, quero lá saber do país) para uma valorização de interesses nossos (os pobres, o povo, moi incluido).

quem afirma que esta perspectiva é inútil e infrutífera, veja lula. a democracia foi implementada não para sancionar a usurpação de poder, mas para dar poder às maiorias, que são, curiosamente, as mais desfavorecidas. como podem as maiorias, sendo maiores, ser sempre as mais desfavorecidas: julgando que precisam de alguém de uma minoria, superior, elitista, para os governar.

se o país for governado por um(a) idiota que organize a economia no sentido de favorecer investimento para criação de postos de trabalho, diminuir desemprego (e respectivo volume de subsídios), relacionar subsídios com produção, criar legislação anti-corrupção (para tal, tem de ser eleito sem intenção de ser corrompido(a)), e se estiver a cagar para o fmi e a merkel (que eu, pessoalmente, adoro, a vários níveis. o fmi não), os bancos e as seguradoras e as multinacionais, bem, bem vindo idiota.

tenho um cliente e amigo que diz que o melhor é ganhar o cavaco, porque é um economista, e o país está mal de economias. mas, tal como o sporting, o país está mal de economias sendo governado (e abusado) por economistas. é nas eleições que se determina o futuro do país (e do clube, isto é absolutamente extensivo ao sporting): pelo voto do povo. curiosamente, o povo é quem se f*de sempre. olhando bem, sendo nós que escolhemos, é uma espécie de masturbação, algo self inflicted, dancing with ourselves.... masoquismo, mas sem a parte da piada.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

natureza moderna



acerca do conceito de arte e dos seus objectivos, do conceito de natureza natural e natureza subjugada.

durante muito tempo, e ainda hoje, ainda que não abrangentemente, o conceito de belo esteve relacionado próximo com a natureza. a natureza era entendida como fonte de belo e puro, e como tal de inspiração para as obras humanas, artísticas e/ou úteis. a natureza era a manifestação da criação divina (em quase todas as religiões) e como tal digna de cópia, ampliação, representação, almejo.

entretanto, bem ou mal, o mundo mudou. darwin proclamou uma teoria mais credível (e menos erótica) que a de adão e eva, e, em evolução em paralelo, a arte foi tendo mais que representar que apenas a beleza da natureza.

assim, continuando-se a pintar naturezas mortas, a fotografar campos de flores belos, a filmar gotas de chuva e a admirar a gravação do som das baleias, porque a arte é evolução, muitos criadores utilizam elementos naturais no que criam: estudam a evolução de uma teia de aranha e a sua resistência; reutilizam a estrutura das conchas ou carapaças de insectos na edificação; estudam e maximizam o efeito de ventos e outros impactos naturais na concepção de automóveis ou outros móveis; reintroduzem o som das baleias em músicas de discoteca ou de protesto.

um destes recriadores, theo jansen, tem um projecto que descobri por acaso, numa pesquisa por outra coisa, e me fascinou.

o homem antigo seguia um movimento global, um estilo. o homem actual produz em muitas direcções, foca em muitos problemas, de muitas perspectivas. e se muito do que o homem produz é anti-natura, o resto do que o homem faz é um regresso ao útero natural. é-me razoável que se construa (não só edifícios, mas tudo que se faz) de uma forma humana, que deixe marcas humanas, aqui entendidas como não naturais (porque o homem já não é muito natural, pois não? chega a ser uma aberração da natureza em certos casos, em certos espécimes ou em certas circunstâncias). mas é adorável que haja homens (e mulheres) naturais, que tentem perceber a natureza, adapta-la, e deixar marcas humanamente naturais.

são pessoas que naturalmente passam por idiotas (e o são) e pensadores inúteis (que não são), gente alucinada que tem uma visão de mundo (também muito representada na animação) onde gestos simples são sublimes. mesmo que seja necessário e excitante evoluir de uma forma anti-natura (porque também o é), tal movimento seria catastrófico se não houvesse idiotas como theo.