quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

des-escrição do maximbombo











não é uma pessoa, mas tem carácter pessoal.

uma coisa que acabo por fazer muito, são mudanças, para mim, amigos, família, quem precisar. quem vai invariavelmente comigo (além do meu irmão, que acho esteve em todas), é o maximbombo, velho de 20 anos mas sempre pronto a servir com dedicação (excepto quando está de baixa, o que vai acontecendo cada vez mais).

no fim de semana lá fomos outra vez, noitadas para e de lisboa, rabo sentado nos bancos cheios de pó, 80 a 90 km/hora, truque nas luzes de máximos, carroçaria a roçar o chão de carregado, o velhote não falhou. a certa altura, com um salto maior, a chave caiu da ignição, mas nem assim falhou.

há pessoas que sabemos contamos com elas, e o maximbombo é dessas. só não é pessoa, em certa perspectiva.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

des-escrição do sr pinguim












do lado sul do apartamento há uns cafés muito antigos: o ld (de "lancha de desembarque", porque o sr ribeiro se bateu nas áfricas), o abadia (onde nem sei o nome do fulano, antipático que é) e o pinguim, bodega portuguesa, explorada pelo sr manuel e a sua senhora.

o pinguim é minúsculo, duas mesas lá dentro encavalitadas no balcão e duas cá fora, a ocupar meia largura de passeio. a clientela é de duas vertentes: as senhoras educadas (alguns senhores, também, mas poucos), que entram para um café rápido, ao balcão; e uma xusma de bebedolas, que começa o dia com taças e jeropiga e vai alimentando a álcool o entusiasmo da jornada, com (re)visitas regulares.

o sr manuel (a joana gosta de lhe chamar sr pinguim, e à mulher sra pinguim, mas parece que ele não gosta e ela ainda menos, ela a sra pinguim, de quem não sei o nome) é polícia reformado, ainda mantém contactos, e é a pessoa certa para desenrascar uns conhecimentos em alturas de necessidade. ser reformado da polícia, mais os conhecimentos que isso acarreta, permite-lhe gerir muito bem a clientela da bebida e do barulho, equilibrando-se muito bem com o trato gentil às senhoras (e a mim, sr arquitecto), porque o homem é gentil por natureza, e ele não se desperdiçou na força.

certo é que o pinguim tem mais clientela que ambos ld e abadia, que lhe são, juntos, maiores de dez vezes.

também certo é que a sra do sr manuel faz um rolo de carne (que não é rolo, mas é cilíndrico e feito de carne, recheado com sei lá que lambarice e coberto de um molho a pedir que o lambam) que faz sucesso entre os clientes a precisar de uma sandes para o almoço (um dia, para me convencer, disse-me que a minha senhora gostava muito, e é verdade), e nós vamos sentir falta daquela bodega.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

des-escrição do meu engenheiro







de introdução: já escrevi aqui que a má relação entre arquitectos e engenheiros é exagerada e que me dou muito melhor com engenheiros do que me dou com colegas, quase sempre. a acabar a introdução, o meu engenheiro não é propriamente o meu engenheiro, é um dos meus, e nem é só meu, é de outros. mas é meu há mais e melhor tempo.

o meu engenheiro deve ser a única pessoa a quem eu reconheço como mais e melhor idiota do que eu (em ambas, quantidade e qualidade). é um unha de vaca quase sem limites, de arrancar os cabelos ao ver, mas quando chega aos limites, é de uma generosidade deliciosa, como se lhe rebentasse o dique da avareza. é teimoso como uma mula e enerva-se descontrolado, mas ai de quem falar mal da mulher, dos filhos ou dos amigos. abusa no ferro do betão, mas vai à obra, e suja-se com o pessoal, e fala de igual para eles.

mas a característica dele que eu prefiro é indignar-se genuinamente com mesquindades alheias. e não se indigna de "filho da puta!", indigna-se de "está mal, não está?", sentido.

so, here's looking at you, my friend, long due.

sábado, 29 de outubro de 2011

a ferros










há coisas que não sei fazer (ou não sei fazer de determinada maneira) e nunca vou saber, seja por incapacidade ou opção.

um burro não voa (dizem) e pássaros não carregam albardas; há quem voe, há quem nade, há quem ande, quem gatinhe, quem corra, quem rasteje, quem salte e pule, e há quem fique imóvel; há quem escreva, quem dance, quem filme, quem cante, quem fotografe, quem grafite, quem pose, quem gestualize, quem mimetize, e há quem silencie de todos os modos imaginários.

não importa o que se é, desde que se seja o que se é. importar, importa, mas só depois, em segunda análise.

a mim mói histórias de gente que tenta forçar outros a serem-lhes iguais, de irmãos que não se entendem (mói porque estou bem habituado), de rejeições de pessoas fascinantes.

dói-me que essas pessoas fascinantes sejam incompreendidas por tais motivos (porque lhes dói), mas não me fazem pena. pena tenho dos imbecis que, colocando-as de parte, ficam sem usufruir do fascínio que elas emanam.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

damn, fool, it is simple










why does kadafi needs to die, why couldn't he share? and eduardo dos santos, and all the other abusers everywhere (political or hidden)?

i'm a little drunk, and i need to write this.

what if the world was turning right? what if every sun of a bitch gots to die with a round of bullets? what if solidarity rules everywhere and beyond?

i lunch at a place were everybody seats at the some table (we, in portugal, have a delightful costume of putting a table one inch aside, so that people feel privacy, it uses to amaze me, now i just adore it), people from factories, eating with hungry generated from physical labor, people that don't care about millions and is fooled everyday by those who have them, people that fells solidarity.

damn, the world is wrong, we don not care about our equals (or differents), but i (maybe want to) start to believe we're starting to. it's when one have nothing that one have nothing to lose, so that one are ready to take it all.

my brother posted this photo with some kids playing in an improvised merry go round. we were all like that, we were born free, and beautiful, and caring, we didn't need fancy things to be happy, we made everything happy, my kid does it, with a card box, if need be. in a lot of places in the world, people gets just happy so that they can eat and feed their kids, sleep and kiss their kids to dream, talk and listen to their kids laugh.

what else is there that is so important, fools?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

des-escrição da(s) mulher(es) que pede diariamente à porta do pingoce com uma criança














odeio o raio da mulher, todas as manhãs sentada na rampa de acesso ao pingoce, com uma criança de colo ou a brincar ali ao lado. ela lamuria pedidos de ajuda, porque, diz, a criança tem fome.

acho que a criança não é sempre a mesma, e já me ocorreu possível que a mulher também não seja, que se revese com outra(s). (por vezes há também uma velhota, mas sozinha, sem criança, e ela parece não ter alternativas). já a(s) mulher(es).......

eu admito que qualquer pessoa precise de ajuda, ocasionalmente. admito que qualquer pessoa tenha direito de escolher mendigar e viver bem ou mal disso (não respeito, mas não impinjo o meu modo de vida a ninguém, nem espero que mo respeitem, que se lixem).

o que me rói  é a criança ali fechada, na rua, à entrada do supermercado, todas as manhãs.

eu acredito que se ensinarmos uma criança a voar, ela pode ser pássaro; se a ensinarmos a andar, ela será vertical; se a ensinarmos a conviver com respeito, ela será sociável; se a ensinarmos a ver sem limites, ela vai sonhar.

mas se ensinarmos uma criança a rastejar, ela vai ser cobra, e a culpa é da *+&%!# daquela mãe, que lhe limita o mundo na mesquinhez. eu sei que a criança tem fome, mas nem sabe do quê.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

des-escrição do casal de cegos da paragem do smtuc














em coimbra, vivo perto da acapo, associação de cegos e amblíopes. calha, por isso, frequentemente, cruzar-me com cegos, na rua.

um casal cativou a minha atenção há bastante tempo. ambos cegos, têm uma menina que não é. é engraçado quando os encontro aos três na paragem do autocarro, porque quando vem um (autocarro), a menina dizia aos pais qual o número, e agora, mais crescida, já diz se é o que vão apanhar ou têm de continuar à espera.

eles faziam compras no pingoce daqui, principalmente a senhora, por vezes com ele, também. já os conheciam, lá, e havia sempre uma funcionária que os acompanhava, levava o cesto das compras, escolhia-lhes a fruta, serviço completo com simpatia e carinho.

há já algum tempo, a senhora começou a trabalhar lá, no pingoce. serviço de repositora, provavelmente auxiliar, sempre a necessitar ela de auxílio, e sempre auxílio a haver. a menina não vejo há meses, mas hoje cruzei-me com os pais, iam à cafetaria do supermercado, guiados pela funcionária mais bonita (por causa do sorriso), e estavam bem dispostos, sorriam também, a evitar os obstáculos.

nunca os vi com má cara ou com más palavras. poderia pensar-se que são cegos, que não vêm os males do mundo, mas seria errado: sendo cegos, vêm bem. eu inclino-me mais para o motivo dos sorrisos deles ser precisamente esse, o de quem sabe ver a parte boa da vida.